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Questão de História - UFU 2018/2 - Echoou em todos os corações proletários e de maneira

UFU 2018/2 - “Echoou em todos os corações proletários e de maneira vibrante o nosso protesto de adesão ao movimento libertário victorioso. (...) O operariado amazonense identificou-se com a revolução; abraçou a idéa (...) e nem podia deixar de ser assim. Se existe nas circumscripções deste paiz colosso, uma nesga onde o operário solfra os revezes da indifferença dos poderes, certamente estas circumscripções é o Amazonas. O operário aggremiado era considerado “indesejável”.” 
Jornal A Lucta Social, n. 7. Manaus, 10/08/1924. 

A “revolução”, desencadeada a partir da caserna em Manaus, acompanhou outros movimentos de mesma natureza em São Paulo e no Rio de Janeiro que contribuíram para o fim da política vigente na Primeira República. Considerando-se essa temática, faça o que se pede. 

A) Cite o fato ocorrido na capital amazonense, apontando duas, dentre suas características. 
B) Como ficou conhecido o conjunto de ações desses movimentos rebeldes na República Velha? Dentre suas principais reivindicações, cite duas.

RESPOSTA:
A) Deflagrada a 23 de julho de 1924, a rebelião dos militares de Manaus, conhecida como Comuna de Manaus, situa-se dentro de um quadro geral do movimento mais amplo chamado de Tenentismo, ocorrido no Brasil entre os anos 1920-1930. É importante ressaltar que um elemento diferencial da Comuna de Manaus em relação às outras revoltas tenentistas está ligado à queda no preço da borracha, o que causou enorme desemprego e miséria na vida dos amazonenses. Se não bastasse a crise da borracha, o governo de César do Rego Monteiro, além de disponibilizar empréstimos a juros altos, também aumentou consideravelmente os impostos. Diante desses fatos, tenentes e militares de baixa patente isolaram Manaus do resto do Brasil por mais de um mês, pois tomaram as estações de Telégrafos e Telefônicas, além de se apropriarem do vapor “Bahia”, que estava ancorado em Manaus. Os revoltosos apreenderam também propriedades de empresas e de fundos bancários de integrantes das oligarquias. Dentre as características desse movimento, podemos citar a revolta desses militares contra o abuso do poder por parte dos civis (dos oligarcas que estavam controlando o governo). E, no caso de Manaus, se revoltaram contra a oligarquia que se reunia em torno do nome do presidente de Estado, César do Rego Monteiro. Desta feita, os rebeldes realizaram prisões de autoridades e de pessoas ligadas ao grupo de Rego Monteiro. De forma geral, essa rebelião pode ser interpretada como uma proposta de moralização políticoadministrativa, na qual militares contestavam o poder civil estabelecido e as políticas econômicas consideradas abusivas.

B) O conjunto de ações desses movimentos rebeldes na República Velha ficou conhecido como Tenentismo. Dentre suas principais reinvindicações, podemos citar a crítica ao sistema eleitoral e às eleições; a proposição da moralização do país por meio do voto secreto e de maior centralização política, eliminando com isso o poder das oligarquias. Além disso, defendiam reformas sociais e econômicas, bem como a criação do ensino público obrigatório. Propunham também a ascensão dos militares ao poder na crença de que os civis eram incapazes de governar e de solucionar os problemas do país.

Questão de História - UFU 2018/2 - Nos anos entre 1780 e 1832, os trabalhadores ingleses

UFU 2018/2 - “Nos anos entre 1780 e 1832, os trabalhadores ingleses, em sua maioria, passaram a se identificar uns com os outros e contra seus dirigentes e empregadores. Essa classe dirigente estava, ela própria, muito dividida, e de fato só conseguiu maior coesão nesses mesmos anos porque certos antagonismos se dissolveram (ou se tornaram relativamente insignificantes) frente a uma classe operária insurgente.” 
THOMPSON, E. P. A Formação da Classe Operária Inglesa: a Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004. p.12.(Adaptado) 

Sobre esse tema, faça o que se pede. 
A) Que contexto socioeconômico permitiu o surgimento da classe operária inglesa e qual fenômeno caracteriza seu amadurecimento como movimento social? 
B) Cite três conquistas decorrentes da organização dos operários na primeira metade do século XIX na Inglaterra.

RESPOSTA:
A) A partir da ascensão do sistema capitalista identificada no contexto da Revolução Industrial, os trabalhadores perderam o controle/conhecimento sobre o processo de produção, sendo submetidos a extensas jornadas de trabalho, baixos salários e precárias condições de trabalho e moradia. Nesse contexto, os trabalhadores iniciaram processo de lutas e de conflitos que buscavam promover mudanças nas relações com seus patrões. A partir dessas experiências de ações coletivas, surgiram as primeiras associações trabalhistas que seriam o embrião do sindicalismo inglês e expressão da consciência de classe.

B) Dentre as conquistas decorrentes das mobilizações dos operários ingleses, podem ser consideradas: redução da jornada de trabalho; proteção e regulamentação do trabalho feminino e infantil; direito à participação política; melhorias nas condições de trabalho; regulamentação de associações políticas; regulamentação da liberdade de opinião. 

Questão de História - UFU 2018/2 - “A acusação de ‘violência’ ou ‘terrorismo’ sem demora

UFU 2018/2 - “A acusação de ‘violência’ ou ‘terrorismo’ sem demora tem um significado negativo. Esse termo tem adquirido uma nova roupagem, uma nova cor. (...) Hoje, ser ‘violento’ ou ser ‘terrorista’ é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário, engajado na luta armada contra a vergonhosa ditadura militar e suas atrocidades”. MARIGHELLA, Carlos, Manual do Guerrilheiro Urbano, 1969 (adaptado). 

A proibição de canais legais de participação política e o aumento da repressão, durante a Ditadura Civil-Militar, fez com que a oposição ao regime se reorganizasse para a luta armada, fomentando o surgimento de vários grupos de guerrilha urbana. Carlos Marighella liderou um dos grupos mais atuantes, formado por estudantes e por políticos na clandestinidade. 

Sobre essa temática, faça o que se pede. 
A) Cite o grupo de guerrilha liderado por Marighella, discorrendo sobre sua vinculação política e suas principais ações. 
B) Aponte uma medida de repressão legal e outra de ordem policialesca, tomadas pelo governo militar para sufocar a guerrilha urbana.

RESPOSTA:
A) Carlos Marighella liderou o grupo guerrilheiro denominado Aliança Libertadora Nacional (ALN), que surgiu, em 1967, como um importante agente de resistência à ditadura civilmilitar. Marighella fundou o referido grupo, vinculado politicamente às tendências de esquerda a partir de sua dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Suas ações, em termos de guerrilha urbana, centraram-se em assaltos a bancos, a carros e a trens pagadores, sequestros de diplomatas e lutas armadas. 

B) A medida de repressão legal tomada pelo governo para sufocar a guerrilha foi a criação do Ato Institucional número 05 (AI-5). O AI-5, de 13 de dezembro de 1968, reeditou os princípios do AI-1, suspendeu o princípio do habeas corpus e instituiu, de forma clara e objetiva, a tortura e a violência física contra os opositores do regime. Em termos de repressão policialesca, a ditadura utilizou-se da perseguição e da prisão de indivíduos entendidos como subversivos, instituindo, em muitos casos, práticas de torturas e até assassinatos.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - Os racistas violam o princípio de igualdade ao conferirem

UFU 2023/2 - Os racistas violam o princípio de igualdade ao conferirem mais peso aos interesses de membros de sua própria raça quando há um conflito entre seus interesses e os daqueles que pertencem a outras raças. Os sexistas violam o princípio da igualdade ao favorecerem os interesses de seu próprio sexo. Analogamente, os especistas permitem que os interesses de sua própria espécie se sobreponham àqueles maiores de membros de outras espécies. O padrão é idêntico em todos os casos. 
SINGER, Peter. Liberação Animal. Trad. Marly Winckler. ed. rev. Porto Alegre, São Paulo: Lugano, 2004. p. 11. (Fragmento). 

Segundo Peter Singer, o especismo, assim como o racismo e o sexismo, descumpre o princípio moral básico de igual consideração dos interesses dos indivíduos. Sobre o modo como animais devem ser tratados, levando em conta o princípio de igual consideração de interesses, marque a alternativa INCORRETA. 
A) A menor capacidade mental dos animais em relação aos humanos não justifica submetê-los à prática de experimentos científicos que seriam dolorosos ou letais a humanos. 
B) A consideração dos interesses dos animais deve levar em conta a dor que eles sentem em razão do tratamento que seres humanos lhes dispensam. 
C) A atitude chamada de especista deve ser condenada, assim como se condena o sexismo e o racismo, pois todas essas atitudes descumprem a igual consideração de interesses. 
D) A experimentação científica com animais que possuem capacidade mental inferior é justificada, pois esses animais não têm interesses; e, além disso, tal experimentação é necessária, uma vez que gera benefícios.

RESPOSTA:
Letra D.

Podemos fazer uma analogia, de acordo com Peter Singer, entre racismo, machismo e especismo. O especismo seria, grosso modo, a consideração tácita de que há sempre uma espécie superior às outras. Assim, a espécie humana seria considerada implicitamente superior às demais espécies de animais, seria possuidora e dominadora dos animais não humanos. Tendo isso em vista, os seres humanos poderiam experimentar, cortar, medir e exterminar os demais animais tendo em vista seus interesses próprios como seres superiores. O filósofo discorda profundamente dessa visão especista do mundo, ao defender que não há justificativa alguma para realizar-se experimentações científicas com animais não humanos.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - [...] A análise em termos de poder não deve postular

UFU 2023/2 - [...] A análise em termos de poder não deve postular, como dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma dominação; estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais. Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; [...] enfim as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais. 
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. G. Albuquerque. São Paulo: Paz e Terra, 2015. p. 100-101. (Fragmento). 

A partir da leitura do trecho acima, assinale a alternativa correta sobre a concepção de poder de Michel Foucault. 
A) O poder é uma situação complexa e relacional, produzida de forma histórica, discursiva e material, irredutível às relações de interdição numa sociedade. 
B) Enquanto multiplicidade de correlações de força, o poder deve ser entendido a partir da luta travada entre uma classe dominante e uma classe subalterna. 
C) Foucault recusa a primazia da concepção jurídica do poder porque ela inviabiliza compreender a repressão que ele exerce sobre os corpos e sobre a vida dos sujeitos. 
D) Por atuar de forma produtiva e microfísica, o poder, para Foucault, se dá nas relações dos sujeitos entre si, não havendo poder exercido pelo Estado ou demais instituições.

RESPOSTA:
Letra A.

Na visão de Michel Foucault, o poder deve ser pensado como relacional, “produtivo” e normalizador, em detrimento do sentido meramente repressivo. Desse modo, ele é complexo, construído historicamente, no discurso e nas ações, contingente e, ele não se restringe às relações de interdição, pois o “poder está em toda parte, porque ele provém de todos os lugares”, por isso, não se coloca no sentido meramente punitivo.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - [...] se a natureza tivesse posto pouquíssima simpatia

UFU 2023/2 - [...] se a natureza tivesse posto pouquíssima simpatia no coração deste ou daquele, se ele (de resto, um homem honrado) fosse por temperamento frio e indiferente aos sofrimentos dos outros, talvez porque, provido ele próprio do dom de uma particular paciência e força para suportar, também pressuponha ou até mesmo exija o mesmo em todos os outros; se a natureza tivesse formado esse homem (o qual não seria na verdade seu pior produto) não propriamente para filantropo; não encontraria ele então dentro de si uma fonte de onde se dar um valor de longe muito mais alto que possa ser o de um temperamento bondoso? Sem dúvida! É aí mesmo que começa o valor do caráter, [...] o mais alto, a saber, que ele faça o bem, não por inclinação, mas por dever. 
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido A. de Almeida. São Paulo: Discurso editorial; Barcarolla, 2009. p. 121. (Fragmento). 

Considerando o trecho acima, assinale a alternativa correta. 
A) As ações morais são aquelas que ocorrem em conformidade com o dever, visto que é necessário ter em conta, em primeiro lugar, o resultado a ser alcançado com elas. 
B) As ações de um filantropo são morais pelo fato de suas intenções e seu temperamento serem indicadores éticos que fundamentam uma ação por dever. 
C) Kant entende por “inclinações” a parte material da vontade humana, que orienta nossas ações para a realização de um propósito particular ou individual. 
D) As pessoas insensíveis ao sofrimento alheio podem, a despeito disso, agir de forma moral, desde que sua ação seja conforme ao dever.

RESPOSTA:
Letra C.

De acordo com a ética kantiana, há uma tipologia das ações, ou seja, elas podem ser classificadas em três tipos: por dever, conforme o dever e por inclinação. A ação por dever é a única considerada moralmente correta, já que tem como motivo o Imperativo Categórico. A ação conforme o dever não é considerada uma ação moral porque o que move ela é sempre um interesse como, por exemplo, o medo de punição. Já a ação por inclinação é aquela que tem como móbil a vontade humana, seus desejos e quereres e, assim sendo, jamais pode ser considerada uma ação moral, pois visa propósitos particulares e individuais.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - A genealogia da moral de Friedrich Nietzsche faz uma análise filológica

UFU 2023/2 - A genealogia da moral de Friedrich Nietzsche faz uma análise filológica de termos e conceitos intrinsecamente relacionados ao contexto e ao conteúdo moral em que se teriam constituído historicamente. O filósofo distingue uma moral nobre, que recusa ideais ascéticos, contraposta a uma outra, ressentida, que seria “de escravos”. 

Sobre essa distinção, assinale a alternativa correta. 
A) O ressentimento está relacionado a um movimento de dirigir-se para fora; nomeia “mau” o outro, em um sentido reativo e vingativo; já a moral nobre é fruto de autoafirmação. 
B) O juízo “bom” tem sua origem, para Nietzsche, nas ações consideradas pelos homens como não egoístas e tornadas boas pelo reconhecimento e pelo costume. 
C) A oposição entre nobres e escravos assemelha-se à relação entre aves de rapina e ovelhas que, ameaçadas por aquelas, agem de maneira nobre, expressando fraqueza como força. 
D) O modo de valoração nobre considera negativo o que intensifica a vida, pois ameaça o modo de existência aristocrático, movido pelo ressentimento e pela compaixão.

RESPOSTA:
Letra A.

De acordo com o filósofo Friedrich Nietzsche, tem-se a moral do nobre (senhor/aristocrática) e a moral do escravo. A primeira, valoriza a vida, a força, a saúde e a criatividade, bem como os ideais ascéticos, enquanto que a segunda nega. A moral do escravo é a moral do ressentimento e a moral do senhor afirma a vida. Vale ressaltar que, essas morais não se relacionam com o domínio do mais forte sobre o mais fraco, nem com a tradição, invalidando as demais alternativas.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - Podemos definir uma CAUSA como

UFU 2023/2 - Podemos definir uma CAUSA como “Um objeto anterior e contíguo a outro, tal que todos os objetos semelhantes ao primeiro mantêm relações semelhantes de anterioridade e contiguidade com os objetos semelhantes ao último”. Se tal definição for considerada deficiente, porque extraída de objetos estranhos à causa, podemos substituí-la por esta outra: “Uma CAUSA é um objeto anterior e contíguo a outro, e unido a ele de tal forma que a ideia de um leva a mente a formar a ideia do outro, e a impressão de um a formar uma ideia mais vívida do outro”.[Livro 1, Parte 3, Seção 14, 31]. 
HUME, D. Tratado da Natureza Humana. 3.ed. Trad. Déborah Danowski. São Paulo: Unesp, 2009. p. 203 (Fragmento Adaptado). 

Marque a alternativa que descreve corretamente a concepção de causa do filósofo Hume. 

A) A causa é uma relação formada na mente causada pelo hábito. Essa relação faz com que um objeto seja entendido como anterior a outro que o segue por contiguidade. 
B) A causa é uma relação entre dois objetos que podemos observar e, por ser observável, podemos afirmar com certeza que há essa relação entre eles. 
C) A repetição de relações semelhantes de sucessão e contiguidade entre objetos semelhantes evidencia que a causalidade é uma operação da natureza e independente da mente. 
D) A causalidade é percebida como parte da estrutura interna do objeto e é responsável por estabelecer relações necessárias com outros objetos.

RESPOSTA:
Letra A.

Para Hume, as relações causais ou as relações de causa e efeito são aquilo que fundamenta a ciência e o fazer científico. Desse modo, a base de todas essas relações, ou seja, o que liga a causa ao efeito, o que faz um objeto ser entendido como anterior a outro é sempre o hábito. Portanto, a concepção de causa para Hume é formada por sucessivas impressões sensoriais, o que ele chama de hábito. Vale lembrar que, a causalidade não é uma lei natural, mas produto do hábito.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - Na assim chamada teoria das quatro causas, Aristóteles

UFU 2023/2 - Na assim chamada teoria das quatro causas, Aristóteles apresenta modos diferentes de explicar e ter conhecimento de certos fatos, uma vez que conhecer algo consiste em dizer por que algo ocorre. No livro II de sua Física, encontramos sua abordagem mais detalhada sobre o assunto. Um dos quatro tipos de causa é a causa final, que Aristóteles apresenta no seguinte trecho. Além disso, denomina-se ‘causa’ como o fim, ou seja, aquilo em vista de quê, por exemplo, do caminhar, a saúde; de fato, por que caminha? Dizemos ‘a fim de que tenha saúde’ e, assim dizendo, julgamos ter dado a causa. [194b32- 35]. 
ARISTÓTELES. Física I e II. Trad. Lucas Angioni. Campinas: Editora Unicamp, 2009. p. 48. (Fragmento). 

Sobre o papel causal daquilo que é um fim, de acordo com a teoria das quatro causas, é INCORRETO afirmar que a causa final 
A) exerce um papel de organização e estruturação daquilo de que é causa, de modo que é em função de determinado fim que algo é organizado de um certo modo. 
B) é relevante para explicar fatos naturais e ações humanas, uma vez que são todos eles organizados por um fim que os dirige e os organiza. 
C) determina que tipo de matéria é adequada para a constituição dos produtos das técnicas e artes, uma vez que, para tais produtos, o fim é a sua função. 
D) na exata medida em que determina a organização material daquilo de que é causa, identifica-se com a chamada causa material.

RESPOSTA:
Letra D.

Sobre a teoria das quatro causas de Aristóteles, ele tem como fundamento explicar o movimento e a transformação do ser. De tal sorte, a alternativa incorreta é a letra “D” que aponta que a causa final determina a organização material. Isso porque, a causa final determina a finalidade, ou seja, “aquilo em vista de quê” e não a sua organização material, que seria a causa material.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - A obra Teeteto é famosa por ser aquela em que Sócrates

UFU 2023/2 - A obra Teeteto é famosa por ser aquela em que Sócrates se apresenta como parteiro de ideias e por investigar o que é o conhecimento. Uma das definições de conhecimento oferecida no diálogo é aquela segundo a qual o conhecimento é opinião (doxa) verdadeira, sendo esta uma crença que está em conformidade com o modo como a realidade acontece. Sócrates, entretanto, apresenta a seguinte objeção a essa definição: 
Sócrates. – Estás então a dizer que persuadir é fazer com que alguém opine? 
Teeteto. – Sem dúvida. 
Sócrates. – Então, quando os juízes foram justamente persuadidos acerca de assuntos dos quais apenas pode saber aquele que viu e não outro, nesse momento, ao decidir sobre esses assuntos por ouvir dizer e ao adquirir uma opinião verdadeira, ainda que tenham sido corretamente persuadidos, tomaram a sua decisão, sem saber se na realidade julgaram bem, não? [201a]. 
PLATÃO. Teeteto. 3. ed. Trad. Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010. p. 302. (Fragmento). 

Marque a alternativa que descreve corretamente a objeção apontada por Sócrates no trecho citado. 
A) Ter opinião verdadeira é possuir um tipo de estado cognitivo que apenas aparentemente se conforma às coisas, uma vez que toda opinião é, para Platão, falsa. 
B) Ter opinião verdadeira sobre algo não é condição suficiente para se ter conhecimento sobre algo, uma vez que é possível dizer coisas verdadeiras sobre o mundo sem saber se o juízo realizado é justificado. 
C) Ter opinião verdadeira é intuir como é a realidade inteligível, uma vez que o domínio do sensível é aparente e enganador, não havendo nele verdade alguma. 
D) Ter opinião verdadeira é ter conhecimento, pois a proposição que apresenta a opinião verdadeira é exatamente a mesma que apresenta um juízo do conhecimento.

RESPOSTA:
Letra B.

O pensamento socrático exposto no texto de Platão, aponta a objeção sobre a construção da opinião. A questão exige entender que a “doxa” - opinião, representa a ideia de falso conhecimento. Porém, ela vai mais além, ao entender que é possível que se tenha uma opinião que não seja devidamente examinada, e que essa opinião pode levar a construção de uma opinião falsa. Portanto, a opinião falsa é aquela não justificada, já a opinião verdadeira seria aquela que possui justificativas plausíveis.

Questão de História - UFU 2023/2 - [...] E no final da década de 1930 as ortodoxias liberais da livre

UFU 2023/2 - [...] E no final da década de 1930 as ortodoxias liberais da livre competição pareciam tão desgastadas que a economia mundial podia ser vista como um sistema tríplice composto de um setor de mercado, um governamental [...] e um setor de autoridades públicas e quase públicas internacionais que regulavam algumas partes da economia. 
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. O breve século XX 1914-1991.São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 108. 

A) Discorra sobre dois aspectos do liberalismo que podem ser relacionados à emergência da crise de 1929. 
B) Explique como a teoria keynesiana teve um papel importante no enfrentamento da crise de 1929.

RESPOSTA:
A) O período histórico anterior à crise de 1929 foi marcado pela exacerbação do liberalismo econômico, marcado pela diminuição das intervenções estatais na economia, reconhecidas como “Laissez-faire” (ou “autorregulação dos mercados”). Tal desregulamentação permitiu o crescimento de especulações financeiras que culminaram em uma superprodução de mercadorias, na quebra da bolsa de valores e na Grande Depressão, que afetou as economias capitalistas globais. No âmbito das relações sociais, o liberalismo pregava a ênfase na liberdade individual. Em consonância, a doutrina econômica capitalista se assentava em uma perspectiva meritocrática que reconhecia as situações individuais a partir dos esforços e do protagonismo de cada indivíduo, desprezando as origens e as contradições sociais. Além disso, a doutrina liberal defendia com ênfase a prerrogativa da propriedade privada. Antes do colapso econômico de 1929 havia uma relutância dos Estados capitalistas em intervir diretamente nas atividades das empresas privadas e de legislar sobre a posse de terras, latifúndios e outros.

B) Em contraposição às tendências liberais, a teoria elaborada pelo economista John M. Keynes recomendava uma forte intervenção estatal na economia. Após 1929, o keynesianismo foi adotado como política econômica em países europeus, latinoamericanos, asiáticos e nos Estados Unidos, epicentro da crise mundial, por meio do “New Deal”. Essa prática colaborou na recuperação dos mercados capitalistas através da ampliação massiva nos gastos em infraestrutura e em políticas de combate ao desemprego. Além disso, as mudanças postas nos padrões fiscais e monetários possibilitaram o crescimento do consumo e investimentos públicos em indústrias e empresas privadas. 

Questão de História - UFU 2023/2 - [...] É um subúrbio de gente pobre, e o bonde que lá leva atravessa umas ruas

UFU 2023/2 - [...] É um subúrbio de gente pobre, e o bonde que lá leva atravessa umas ruas de largura desigual, que, não se sabe por quê, ora são muito estreitas, ora muito largas, bordadas de casas e casitas [...]. Há, porém, robustas e velhas mangueiras que protestam contra aquele abandono da terra. Fogem para lá, sobretudo para seus morros e escuros arredores, aqueles que ainda querem cultivar a Divindade como seus avós. Nas suas redondezas, é o lugar das macumbas, das práticas de feitiçaria com que a teologia da polícia implica. 
BARRETO, A. H. de Lima. O Moleque. In: BARRETO, A. H. de Lima. Contos completos de Lima Barreto. São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 143 [...] 

O Museu da República no Rio de Janeiro recebeu uma coleção histórica: 523 peças religiosas retiradas de terreiros de umbanda e candomblé entre 1889 e 1945. O material, que estava reunido em 77 caixas, ficou com a polícia por mais de 100 anos. 
Disponível em: g1.com/rj/riodejaneiro/noticia/2020/. Acesso em: jun. 2023. 

A) Lima Barreto, em seu conto “O Moleque”, ilustra as lutas de brasileiros(as) que tentavam praticar suas devoções religiosas no início da República. Apresente 2 (dois) argumentos que justificam o uso, pelo autor, da expressão “teologia da polícia”. 
B) A partir da leitura dos fragmentos acima, explique como o princípio constitucional da liberdade religiosa era vivenciado cotidianamente, no início da Primeira República, de acordo com os distintos grupos sociais.

RESPOSTA:
A) O conto “O Moleque” foi escrito por Lima Barreto no início do Século XX quando a polícia reprimia as práticas rituais vinculadas às religiões de matrizes africanas por razão de racismo. Configuradas por teorias eugenistas, que se fortaleceram naquele período, as práticas racistas estruturaram as relações políticas e sociais reproduzidas no Brasil. Outro aspecto diz respeito à ação policial contra os pobres e a população negra por meio da invasão dos territórios de práticas religiosas. Tais ações buscavam constituir domínio sob os espaços urbanos que passavam por profundas reformas estruturais. Na cidade do Rio de Janeiro, durante o governo do prefeito Pereira Passos, essas mudanças propiciaram a demolição de cortiços e a abertura de avenidas sobre os lugares de sociabilidade dos pobres. Vale também registar que a polícia era (e ainda é) utilizada pelo Estado para agir na “questão social”, ou seja, na contenção dos movimentos sociais, trabalhistas e culturais da classe trabalhadora. Naqueles anos, essas circunstâncias se legitimaram através da instauração das “leis contra a vadiagem”, elaboradas após a abolição da escravatura. Esse aparato legislativo, mantido residualmente nos “códigos de postura” atuais, buscava controlar a força de trabalho dos(as) libertos(as) e de seus(suas) descendentes por meio da repressão e da violência. Por esse veio, os lugares religiosos, assim como os de moradia, de jogos, de festas públicas, entre outros, eram (e ainda são) frequentemente assolados por diversos agentes de repressão do Estado.

B) Até 1890, o catolicismo era a religião oficial do Estado Brasileiro. As demais religiões eram restringidas a cultos domésticos (isto é, realizados de forma particular nas casas dos professantes). Além disso, no final do império, o catolicismo era subvencionado e gozava de enormes privilégios estatais. A Constituição de 1891, elaborada no início da Primeira República, marcou o rompimento entre o Estado brasileiro e a Igreja Católica. Em tese, o Estado se tornaria laico e todas as religiões passariam a gozar de plena legalidade e oficialidade pública (com liberdade de expressão e de divulgação irrestrita de suas crenças). Porém, os fragmentos apresentados na questão fornecem indícios de que as religiões de matrizes africanas foram isoladas no interior de favelas e de periferias urbanas. Na prática, essas religiões foram consideradas clandestinas, tornando-se alvo de intensas buscas, aprisionamentos e apreensões por parte do aparato policial de então. Evidentemente, a Igreja Católica continuou a ser respeitada como “oficial”, mantendo absoluta presença arquitetônica nas praças e nos centros das cidades brasileiras. A irrestrita liberdade de crença atribuída ao cristianismo fez com que a Igreja Católica acolhesse em suas comunidades as categorias médias e as classes sociais mais abastadas da sociedade brasileira.

Questão de Sociologia - UFU 2023/2 - [...] O uso social do corpo é uma dimensão da antropologia da pessoa

UFU 2023/2 - [...] O uso social do corpo é uma dimensão da antropologia da pessoa que assinala como socialmente construída a maneira como caminhamos, sorrimos ou rimos, olhamos, escutamos ou empreendemos muitas das funções consideradas naturais de nossos corpos. Quando duas pessoas se olham, por exemplo, há diferenças notáveis conforme a nacionalidade: os brasileiros podem olhar alguém de seu próprio sexo ou do outro sexo de forma muito direta, com contato direto entre os olhos. No entanto, em países europeus, não se deve olhar frontalmente nos olhos do outro, pois isso pode significar uma tentativa de sedução. Os brasileiros se comunicam com outras pessoas por diversas formas de contato corporal muito direto: pelo olhar, com abraços e beijos, tocando no corpo alheio para chamar a atenção – o que, por exemplo, na França, seria considerado inadequado e possivelmente interpretado como um avanço indesejado e talvez agressivo. 
HEILBORN, Maria Luiza. Entre as tramas da sexualidade brasileira. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 14, n. 1, p. 336, janeiro-abril/2006. 

Considerando o fragmento de texto acima e as elaborações de Émile Durkheim, responda aos itens abaixo. 
A) Explique como as diferenças de significado da “troca de olhares” entre diferentes nacionalidades podem ser compreendidas como parte da consciência coletiva. 
B) Explique de que maneira o uso social do corpo, descrito no exemplo acima, pode ser considerado um fato social.

RESPOSTA:
A) A consciência coletiva pode ser definida como um conjunto de normas gerais, de valores sociais que cada sociedade desenvolve e em torno dos quais organiza sua vida coletiva, uma instância moral que se manifesta nos sistemas jurídicos, religiosos, comportamentais e outros e que uniformiza nossos comportamentos sociais. Os valores culturais são estabelecidos dentro de uma perspectiva entre os vários indivíduos de uma mesma sociedade, que compartilham os controles sociais e seus valores. Assim, cada sociedade estabelece como devemos olhar para o outro, a forma aceita por todos como a mais educada e respeitosa, que advém desse conjunto de ações ensinadas aos indivíduos. Logo, o modo como trocamos olhares com as pessoas pode ser compreendido como parte da consciência coletiva, na medida em que somos educados a nos comportar com base em determinados valores comuns ao nosso grupo social e que uniformizam nossos comportamentos, estabelecendo valores gerais aceitos como padrão ou norma de educação. Estes padrões são distintos em cada país por conta das diferenças culturais de cada povo, que determinam, com base em seus valores e normas, quais os comportamentos são aceitáveis ou não.

B) Partindo da teoria proposta por Durkheim, “é fato social toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter”. Desta forma, percebe-se no texto como as pessoas de diferentes sociedades adotam maneiras de agir que não são inatas, mas sim construções sociais as quais foram incorporadas em seu processo de socialização, impostas pelas sociedades que vivem, sem que pudessem escolher e a tal ponto, que buscam reafirmar tais modos de agir censurando aqueles que não o fazem como eles. A “troca de olhares” pode ser analisada a partir da teoria durkheimiana como um fato social. 
O uso do corpo pode ser considerado um fato social, na medida em que somos educados a adotar determinados padrões de comportamento, posturas, valores e normativas que, longe de serem inatos, são extensões dos valores sociais comuns que incorporamos no processo de socialização por imposição, padronizando nosso comportamento social, inclusive em relação ao corpo. Estes comportamentos coletivos podem ser considerados fatos sociais na medida em que são modos de agir externos aos indivíduos, comuns a todos os membros do grupo social e atuam sobre nós de modo coercitivo, obrigando-nos a adotá-los, independentemente de nossa vontade individual. No exemplo do texto, a troca de olhares é normatizada de modo diferente em cada país, respeitando as diferenças culturais, mas impondo de igual modo o comportamento socialmente aceito a todos os indivíduos.

Questão de Sociologia - UFU 2023/2 - [...] Para quem está desempregado, a participação em processos seletivos

UFU 2023/2 - [...] Para quem está desempregado, a participação em processos seletivos é um momento crucial. Os recrutadores fazem perguntas e dinâmicas que vão definir se o candidato se encaixa ou não no perfil da empresa. O problema é quando o tal perfil não inclui a pele negra ou o cabelo black power. Desde 2018, o morador de Ceilândia, Matheus Dourado, 21 anos, busca uma oportunidade de trabalho. De lá para cá, participou de mais de 70 processos seletivos, sem sucesso. [...] Matheus relata que questionaram se ele tinha interesse de fazer faculdade. Ele respondeu que sim. O recrutador disse, então, que Matheus não poderia ficar com a vaga porque seria difícil conciliar trabalho e estudo [...]. Em outras ocasiões, a aparência foi questionada. “Já perguntaram se eu podia cortar meu cabelo ou fazer outra coisa, porque não era o perfil do lugar, mas não me sinto bem com o cabelo cortado ou de outra forma”, conta. [...] A experiência, porém, não tem sido suficiente nas seleções: muitas vezes, até se interessam pelo currículo, mas, quando o veem pessoalmente, recrutadores mudam de atitude. “Na entrevista, as pessoas já me olham de cima a baixo. Não só por ser negro, mas também por ser uma pessoa LGBTQI+ e afeminada”, revela. 
ARAÚJO, Ana L.; LISBOA, Ana Paula. Empresas ainda desperdiçam talentos negros por causa do racismo. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/. Acesso em: 20 de abril de 2023. (Texto adaptado). 

A) Explique como o conceito de violência simbólica, tal como definido por Pierre Bourdieu, pode ser utilizado para compreender a ação dos recrutadores de emprego no exemplo acima. 
B) Explique como a concepção de relativismo cultural pode desfazer as visões preconceituosas enfrentadas pelo jovem negro no mercado de trabalho.


RESPOSTA:
A) O conceito de violência simbólica proposto por Pierre Bourdieu evidencia o processo de imposição da cultura dominante de uma sociedade sobre todos os indivíduos. Diferentemente da violência física, que pode inclusive ser a última a recair sobre o indivíduo, a violência simbólica, ao arbitrar normas de conduta, comportamentos, modos de se vestir e falar e outros, pretendendo invisibilizar e anular os valores culturais de determinadas camadas sociais, provoca e pode deixar danos psicológicos profundos. Tal conceito se aplica na imposição de cortar ou modificar o cabelo para um modelo padronizado, ou mesmo disfarçar sua orientação sexual e também negando a oportunidade de trabalho para aqueles que não adotam determinados padrões e valores culturais e sociais. Ademais, os recrutadores traçam uma régua de grupos privilegiados e preferíveis na seleção, perpetuando a violência simbólica sobre os demais grupos, destacando as características “não desejáveis” de forma violenta, disfarçada sob a premissa de “perfil da vaga”.


B) O relativismo cultural afirma que os elementos de uma cultura só podem ser compreendidos a partir de seus próprios elementos, na medida em que cada povo ou grupo social possui simbologias e códigos próprios que não são comparáveis e nem valoráveis, especialmente quando se faz isso elencando elementos de outra cultura diferente. Desta forma, cabe ao indivíduo de cultura diferente relativizar os conceitos que emprega para compreender a outra e considerar que ambas são culturas de igual valor. É a diversidade cultural. Dito de outro modo, o observador procura partir do princípio de que os conceitos que condicionam a sua análise são construções específicas de sua cultura e que, para compreender elementos da outra, ele deve empregar os conceitos que aquela cultura utiliza para pensar o seu modo de vida. Sendo assim, ao compreender como determinadas formas de ser são concebidas pelo jovem negro descrito no texto, pode-se colocar em questão os padrões ditos “normais” de recrutamento.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - No livro O segundo sexo, a filósofa Simone de Beauvoir

UFU 2023/2 - No livro O segundo sexo, a filósofa Simone de Beauvoir desenvolve um pensamento de cunho existencialista sobre o que se construiu historicamente como uma “essência do feminino”, distinguindo o que seria natural à mulher, por oposição ao que é associado ao homem. A partir disso, explique 
A) como a filósofa entende a construção dessa “essência do feminino”. 
B) como se caracteriza a orientação existencialista da filósofa frente a essa construção.

RESPOSTA:
A) Em “O segundo sexo”, Simone de Beauvoir afirma que sempre houve mulheres, de modo que é um desenvolvimento histórico que explica sua existência como classe e mostra a distribuição desses indivíduos dentro dela. A História nos mostra, portanto, que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos, desde os primeiros tempos do patriarcado, de modo que julgaram útil manter a mulher em estado de dependência e seus códigos estabeleceram-se contra ela, constituindo uma narrativa de inferioridade baseada em o que seria natural à mulher. Desta maneira, a mulher se constituiu concretamente como o Outro, o não homem, seu oposto em habilidades e funções. Esta condição servia aos interesses dos homens, mas convinha também a suas pretensões ontológicas e morais, pois desde que o sujeito busque afirmar-se, o Outro, que o limita e nega, é-lhe, entretanto, necessário, já que ele só se atinge através dessa realidade que ele não é. Assim, a naturalização da condição feminina serviu para perpetuar as relações de poder desiguais entre homens e mulheres.

B) O existencialismo é uma corrente filosófica que postula que o indivíduo não apresenta uma essência que o pré-determina socialmente. Sendo assim, o ser humano é o resultado de suas escolhas e decisões, cabendo somente a ele a responsabilidade de seus atos e a liberdade de sua existência. Deste modo, se a existência precede a essência, o determinismo, relacionado a certas características ditas inatas ou naturais, atrelado à mulher por uma vinculação entre a condição histórica e a concepção ontológica não pode ser mantido. Ao se basear na ideia de que não é a essência, mas a existência o que determina a concepção de mulher e de feminino, é equivocado afirmar que as mulheres são menos capacitadas do que os homens simplesmente por serem mulheres. O que é observado, em muitos casos, é que não foram dadas a elas as mesmas oportunidades e condições das quais os homens se beneficiaram. A máxima de que a mulher é o sexo frágil é compreendida, portanto, se situarmos a figura feminina dentro de um universo de costumes, ideologias dominantes, educação familiar e escolar, no qual ela foi moldada para se constituir em oposição ao sujeito masculino sem que tome decisões por si mesma. Para Beauvoir, a liberdade da mulher para tornar-se vem do reconhecimento dessas narrativas manipuladas, para que seja possível escapar dessa condição e determinar o seu próprio destino. 

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - A realidade da ação humana impõe a agentes morais a necessidade de identificar

UFU 2023/2 - A realidade da ação humana impõe a agentes morais a necessidade de identificar em cada circunstância particular o que deve ser feito e como. No âmbito da teoria ética de Aristóteles, a prudência (phronesis) é a virtude intelectual da parte racional da alma que opera com o que é contingente. Essa virtude intelectual é condição necessária para a delimitação do meio termo em que consiste a ação moralmente boa e para a deliberação correta. Explique como 
A) a prudência (phronesis) demanda deliberar corretamente. 
B) o meio termo é identificado, levando em consideração as circunstâncias particulares da ação.

RESPOSTA:
A) Na ética de Aristóteles, a virtude é uma disposição interior constante, que pertence ao gênero das ações voluntárias, feitas por escolhas deliberadas sobre os meios possíveis para alcançar um fim, que está ao alcance ou no poder do agente e cabe à prudência (phronesis) orientar a escolha, isto é, a deliberação racional, porque é capaz de discernir o bom e o mau nas coisas e as relações convenientes entre meios e fins, visando ao meio termo.

B) A virtude é a justa medida entre os extremos contrários, a moderação entre os dois extremos, o justo meio termo, nem excesso, nem falta. A virtude é sabedoria prática que lida com o contingente e com o tempo, com aquilo que pode ser de outra maneira e para o qual não existem regras preestabelecidas que orientem, de antemão, a ação. Moderar é pesar, ponderar, equilibrar e deliberar. É a ação que institui a medida, o métron, para aquilo que, por si mesmo e em si mesmo, não possui ou não conhece medida ou limite. Na ética aristotélica, a medida moderadora é o médio. A ética é, pois, a ciência prática da moderação ou, como diz Aristóteles, da prudência. A tarefa da ética é orientar-nos para a aquisição desse hábito, a educação do caráter, tornando-nos virtuosos e prudentes.

Questão de História - UFU 2023/2 - Na metade do século IV, o Estado de maior expressão no vasto território da Núbia

UFU 2023/2 - Na metade do século IV, o Estado de maior expressão no vasto território da Núbia era conhecido pelo nome de Axum. Herdeiro das tradições de Meroé, distinguia-se delas devido a uma alteração cultural fundamental: a adoção do cristianismo. 
MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2018. p. 28. (Fragmento). 

Considerando as formas de organização social e religiosa das sociedades africanas anteriores à expansão europeia no continente, assinale a alternativa INCORRETA
A) O cristianismo difundido na África não gerou conflitos com o posicionamento de autoridades religiosas de Roma ou de Bizâncio. 
B) Sociedades africanas antigas possuíam formas de organização social matrilineares, situação que começou a mudar a partir da lenta adoção do cristianismo e do islamismo. 
C) A igreja axumita foi considerada uma igreja cismática pelas autoridades religiosas de Roma e de Bizâncio. 
D) O monofisismo é uma interpretação dos evangelhos que se difundiu em Alexandria e considerava que a natureza divina de Cristo prevalece sobre a natureza humana.

RESPOSTA:
Letra A.

O Reino de Axum desenvolveu-se entre os séculos I d.C e X d.C, na África Oriental (Chifre Africano, onde atualmente se localizam a Eritreia, a Etiópia, partes do Sudão, entre outros). Foi um dos mais poderosos e prósperos reinos africanos na transição da antiguidade para o mundo medieval. No século IV, os axumitas conquistaram Méroe (última capital do Reino de Cuxe) e o rei Ezana converteu-se ao cristianismo. A Igreja cristã axumita não foi aceita pela Católica, a Santa Sé, conforme foi apontado na alternativa C da questão. Por conseguinte, a alternativa A  assume-se como a incorreta na medida em que afirmou que o cristianismo difundido na África não gerou conflitos com a autoridades romanas e bizantinas, o que não se confirma historicamente.

Questão de História - UFU 2023/2 - Diz-se algumas vezes: “A história é a ciência do passado”.

UFU 2023/2 - Diz-se algumas vezes: “A história é a ciência do passado”. É [no meu modo de ver] falar errado. BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p. 52 

A partir da afirmativa proferida por Marc Bloch, assinale a alternativa que explica a afirmação deste historiador. 
A) A história não é somente uma ciência do passado. Ela não possui método definido, sendo possível todas as formas de interpretação. 
B) A história não é somente uma ciência do passado. Ela não possui métodos, sendo puramente narrativa. 
C) A história não é somente uma ciência do passado, pois o passado já está dado e acabado, não possibilitando interpretações. 
D) A história não é somente uma ciência do passado, pois o historiador analisa os acontecimentos a partir do presente, não sendo possível uma investigação exclusivamente a partir do passado.

RESPOSTA:
Letra D.

A historiografia do século XX, sobretudo na Escola dos Annales, exemplificada pelo pesquisador Marc Bloch, diversificou o conceito de documento e fontes históricas, estabeleceu um maior contato entre a história e outras áreas do conhecimento, a necessidade de passar de uma abordagem centrada na “história-narração” para a “história- -problema”, o abandono de uma história centrada nos fatos isolados e marcantes, nos indivíduos, para uma história social, dos aspectos coletivos: demografia, mentalidades, entre outros. Por fim, conforme apresentado pela alternativa D, o item correto da questão, os Annales também defendiam o estudo da história a partir do presente, das hipóteses e situações-problemas levantados pelo historiador pensando na interação com o seu tempo. Esta é a tese defendida por Marc Bloch no trecho citado na introdução da questão. 

Questão de História - UFU 2023/2 - No Terceiro Reich, o Mal perdera a qualidade pela qual a maior

UFU 2023/2 - No Terceiro Reich, o Mal perdera a qualidade pela qual a maior parte das pessoas o reconhecem – a qualidade de tentação. Muitos alemães e muitos nazistas, provavelmente a esmagadora maioria deles, devem ter sido tentados a não matar, a não roubar, a não deixar seus vizinhos partirem para a destruição (pois eles sabiam que os judeus estavam sendo transportados para a destruição, é claro, embora muitos possam não ter sabido dos detalhes terríveis), e a não se tornarem cúmplices de todos esses crimes, tirando proveito deles. Mas Deus sabe como eles tinham aprendido a resistir à tentação. 
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Cia das Letras, 1999. p. 167. (Fragmento) 

No livro Eichmann em Jerusalém, a intelectual Hannah Arendt cunhou o conceito de Banalidade do Mal, que serviu para analisar as ações nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Esse conceito compreende que 
A) os alemães e os nazistas não agiam de forma consciente das maldades praticadas pelo Terceiro Reich. 
B) a maldade não é praticada apenas por indivíduos reconhecidamente cruéis, mas também por indivíduos comuns. 
C) os alemães fecharam os olhos para as ações cruéis do Terceiro Reich, especialmente em relação ao extermínio dos judeus. 
D) os burocratas alemães, por obedecerem às ordens do Terceiro Reich, não tinham culpa daqueles crimes.

RESPOSTA:
Letra B.

A questão traz um texto da filósofa Hannah Arendt sobre o julgamento do nazista Eichmann. O conceito trabalhado é o de “Banalidade do Mal”. Para Hannah Arendt existem o “Mal Radical”, quando o homem tem a consciência de que está praticando o mal e; o “Mal Banal”, quando a ação do homem é inconsciente e, por isso, ele considera que não há problemas morais em suas práticas, pois ele cumpre ordens e é apenas uma engrenagem do sistema. Esse último conceito se aplica a Eichmann.

Questão de Filosofia - UFU 2023/2 - Achille Mbembe, em Crítica da razão negra, desenvolve uma crítica

UFU 2023/2 - Achille Mbembe, em Crítica da razão negra, desenvolve uma crítica ao projeto europeu de governo e conhecimento que subalternizou os povos negros, constituindo a raça como motivo de segregação e promovendo crimes e massacres ainda presentes nas sociedades ocidentais. 
Estamos condenados a viver não apenas com o que produzimos, mas também com o que herdamos. Tendo em vista que não saímos inteiramente de uma mentalidade dominada ainda pela ideia da seleção entre diferentes tipos de humanos, será preciso trabalhar com e contra o passado, de tal maneira que este possa se abrir a um futuro a ser compartilhado com igual dignidade por todos. A questão da produção, a partir da crítica do passado, de um futuro indissociável de uma certa ideia de justiça, da dignidade e do em comum, eis o caminho. 
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2013. p. 306. (Fragmento) 

A partir do trecho acima, marque a alternativa CORRETA. 
A) Para Mbembe, a opressão racial, vinculada à colonização europeia, é algo relegado ao passado, caracterizando as relações coloniais e as sociedades escravocratas. 
B) Classificação e hierarquização entre diferentes tipos humanos são práticas essenciais no desenvolvimento de uma política emancipatória e promotora de equidade. 
C) A crítica da razão negra é indissociável da constatação de um passado histórico de segregação e subjugação frente ao qual assumimos formas críticas de enfrentamento. 
D) O racismo estrutural e o apagamento da cultura negra são fenômenos recentes no mundo ocidental, contemporâneos ao advento do capitalismo neoliberal.

RESPOSTA:
Letra C.

Os povos negros, ao longo da história moderna, foram relegados à subalternidade, ao exotismo, ao não humano e ao não intelectualismo. Desse modo, a identidade negra foi construída a partir da ótica da subjugação/segregação e, portanto, compreender essa construção histórica é resistir e enfrentar o racismo estrutural e seus desdobramentos.