PESQUISAR ESTE BLOG

Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens

A água - Poema de Domingos Paschoal Cegalla

A água 

Flui a água, flébil, flexuosa, 
em seu eterno fluxo, 
aflita por chegar 
ao final de seu curso. 

A água flui, a água lava, 
a leve água leva 
para longe as impurezas 
de nossa vida breve. 

Fluida flecha frágil, 
avança, entanto, impávida; 
lépida, atinge o alvo, 
expande-se toda em dádivas... 

Tange a água, tange o tempo 
a aguilhada da pressa. 
O tempo nunca retorna, 
a água sempre regressa... 

DOMINGOS PASCHOAL CEGALLA

Domingos Paschoal Cegalla nasceu em Santa Catarina em 1920. Foi professor e autor de dezenas de livros de português e gramática Morreu em fevereiro de 2013 no Rio de Janeiro aos 92 anos.

Porque - Poema de Sophia de Mello Breyner

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

*Sophia de Mello Breyner Andresen foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.

Fanatismo - Poema de Florbela Espanca

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist’rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...”

* Florbela Espanca, batizada como Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, foi uma poetisa portuguesa.

Liberdade - Poema de Fernando Pessoa

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa


Para ser grande, sê inteiro: nada - Poema de Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

*Ricardo Reis foi um heterônimo do poeta português Fernando Pessoa.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - Poema de Luis Vaz de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões


MAR PORTUGUÊS - Poema de Fernando Pessoa

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, in Mensagem.

Beija-flor - Poema de Roseana Murray

Beija-flor

Beija-flor pequenininho
que beija a flor com carinho,
me dá um pouco de amor,
que hoje estou tão sozinho...
Beija-flor pequenininho,
é certo que não sou flor,
mas eu quero um beijinho,
que hoje estou tão sozinho...

MURRAY, Roseana. No mundo da lua.São Paulo: Paulus, 2011.

Presença - Poema de Mário Quintana

Presença
Para Lara de Lemos

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

QUINTANA, Mário. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006. p. 419.

O Boia-Fria (poema de Dimas Barros)

O Boia-Fria
Dimas Barros

Meu nome é Dimas Barros,
Não gosto da covardia,
sou o autor deste verso,
Contra a má democracia.

Oh! triste vida padece,
mas o governo não conhece,
O esquecido boia-fria.

Quando chega amanhecer o dia,
No começo da semana,
Segue pra sua batalha,
Colher laranja, carpir cana.
O esquecido boia-fria
Nunca tem alegria
Porque o patrão o engana.

Trabalha todos os dias,
É triste a lamentação;
Por muito que ele faça,
É difícil ter razão.
Quando espera uma melhora,
muitos dias ele chora,
Por causa da exploração.

Peço a Deus de Abraão,
E à Santa Virgem Maria,
Que tenha dó da pobreza
E da má democracia.

Isto é pra quem conhece,
E triste vida padece
O esquecido boia-fria.

(Dimas Barros - in O Mensageiro de Santo Antônio. Novembro de 1983.)



Mãe Luanda (poema de José Alberto Valente)

Mãe Luanda
José Alberto Valente

Terra vermelha, 
Cor do sangue da gente que te percorre
Nos emaranhados de que te fazes,
Livre como o curso do rio de águas amenas e calmas
Onde bebes a saudade e celebras a vida.

Bar aberto
Nas bermas da ternura do teu povo,
Em cada sorriso dos teus filhos,
Mãe de esperanças sem desgostos
Que ao teu balcão a tristeza não se bebe.
Espera-se a madrugada de olhos postos no azul
De mãos dadas com o arco-íris das monções.
Sempre minha, sempre mãe, sempre Luanda

Índio Velho (poema de Salgado Maranhão)

Índio Velho
Salgado Maranhão

Já nos tiraram o couro
e o sangue;
já nos rifaram a terra
e seus nomes santos
(deixando-na rente ao osso).
Insaciáveis, agora, trocam-nos
pelos bois.
Não, à seiva do agrobusiness!
Não, à sorte da agromorte!
Não ao tablet sem a Taba!
Geme a flora,
geme a fauna,
geme o rio de mercúrio.
Do fogo não brotam flores.
Deixem o que ainda nos resta!
O que veste o índio é a floresta.

*Salgado Maranhão é um poeta afrodescendente do Brasil.
Os seus quatorze livros incluem “Sol Sanguíneo,”
“Pelagem da Tigra,” “Palávora” e “O mapa da tribo.”

Descriação (poema de Homero Aridjis)

Descriação
Homero Aridjis

A Amazônia tornou-se a maior fogueira do mundo.
Os Alpes e os Andes fizeram-se abismos invertidos.
Os mares evaporaram-se e os olhos que olhavam os mares também.
O pássaro que cantava as quatrocentas vozes do azul
esfumou-se na árvore da vida em chamas.
Os olhos humanos foram os fossos mais profundos de todas as criaturas.
De repente, foi noite na Terra.
Um silêncio ardente envolveu tudo.
O mais órfão dos seres foi o filho do homem.
O rosto do bebê foi velho como a Lua.
Éons apagaram-se em instantes.
Em alguma parte em algum momento
o Godzilla demente e o Batman enlouquecido
agarraram-se a boladas nucleares.
Tudo foi breve.
O Apocalipse será obra do homem, e não de Deus.


Homero Aridjis é um poeta, romancista e ambientalista mexicano.
Entre seus livros estão “1492. Vida e Tempos de Juan Cabezón de Castela”.

A borboleta vermelha-preta (poema de Manuel Rui)

A borboleta vermelha-preta
Manuel Rui 

A borboleta vermelha-preta
preta-amarela
voa como ela
sabe fazer.

Voa no campo e no jardim, foge do
asfalto para o capim
e tem nos olhos um verde a mato,
cor de uma esperança
que não tem fim.

Antes do fruto que dá fartura ela
pousa na flor;
flor da semente da agricultura.

A borboleta vermelha-preta
preta-amarela
voa como ela
sabe fazer.

E mais voava a borboleta se ela soubesse
ler e escrever.
Mas que linda é a borboleta vermelha-preta
preta-amarela na flor
do fruto que dá fartura!

E que mais linda vai ficar a borboleta
nas muitas vezes,
nos doze meses
do nosso Ano da Agricultura.


Fonte: Língua Portuguesa | Angola. Manual da 3.ª Classe.

A Ilha de Luanda (poema)

A Ilha de Luanda

A Ilha de Luanda, ou Ilha do Cabo,
faz-me pensar nos seus coqueiros
nos seus parques florestais,
nas suas casas
e nas suas tradições.
Faz-me pensar
nos pescadores lançadores de redes
nas peixeiras e suas vestes
Ilha de Luanda,
com suas praias
e a Kianda.

Fonte: Língua Portuguesa | Angola. Manual da 3.ª Classe. 


Regresso (poema de Alda Lara)

Regresso
Alda Lara

Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar…

Voltar…
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia…
Regressar…
Poder de novo respirar,
(oh!…minha terra!…)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor…

Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monotono, igual,
do casario plano…
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano…
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão…
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos…
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede…Tenho sede dos crepusculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais…
Saudade…Tenho saudade
do horizonte sem barreiras…,
das calemas traiçõeiras,
das cheias alucinadas…
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!…

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana…
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa…

Ah! quando eu voltar…
Hão-de as acacias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!…
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei…
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!…

Biografia:
Alda Lara (1930 – 1962).

Alda Lara é natural de Benguela, onde nasceu em 1930. Cursou Medicina. Dedicou-se à poesia. Morreu em Cambambe (Angola), aos 33 anos de idade.

Velhas florestas de agora (poema de Fernando Sylvan)

VELHAS FLORESTAS DE AGORA
Fernando Sylvan

Eu tinha uma floresta
quando era pequenino.
Ela era na montanha
no alto lá dos altos.
As florestas serviam
para todos brincarmos.
Espécie de poesia
de árvores e bichos:

o perfume do sândalo
a paz da casuarina
a flor do cafeeiro
a altura dos coqueiros
a cor da bananeira
o estilo dos bambus
os laços dos cipós
o riso dos macacos
o salto dos veados
o canto dos loricos.
As florestas serviam
para todos brincarmos.

Mas não era verdade.
Ilusão de meninos.
As florestas serviam
desde séculos e séculos
como templo sagrado
de rezar liberdade.

Nossos pais e avós
nas florestas secretas
iam gritar sua revolta
e rezar liberdade.
E escreviam no chão
e escreviam nas pedras

e escreviam nas árvores
contra o seu opressor
as palavras precisas
de rezar liberdade.
E ainda servem agora
a heróis guerrilheiros
como templo sagrado
de rezar liberdade!

Fonte: livro "Enterrem meu coração no Ramelau – Poesia de Timor-Leste".

Oh! Liberdade! (poema de Xanana Gusmão)

Oh! Liberdade!
Xanana Gusmão

Se eu pudesse pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver, do cimo dos meus montes,
o quadro roxo
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor

Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido
de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies do capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor

Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhe romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!

Com Ruy Cinatti, em Timor (poema de Albano Martins)

Com Ruy Cinatti, em Timor

Dili-Timor, dor sempre esquecida,
tão presente dor.
Ruy Cinatti

Talvez Ruy Cinatti
esteja agora em Dili
com um ramo
de flores
na mão - um ramo
de lágrimas. Os mortos
nunca repousam quando
os que amaram sofrem,
choram, feridos
na medula.

Um dia, o sol
virá mais cedo para enxugar
as lágrimas
e o luto, e do chão
empapado de sangue brotará
uma espiga vermelha. A espiga
da alegria.

Albano Martins
(in «Cástalia e Outros Poemas»,
Campo das Letras, 2001)


Menino de Timor (poema de Jorge Barros Duarte)

Menino de Timor
Jorge Barros Duarte

Menino de Timor, estás triste?!...
Porquê?!... - Não tenho com quem brincar!
Nem com quem!... Já nem posso falar!...
A minha terra correste e viste

Como só há silêncio e tristeza!...
Assim é na palhota que habito!...
Já nem oiço na várzea um só grito!...
Só vejo gente que chora e reza!...

Que saudade que eu tenho dos jogos
Da minha aldeia agora deserta!...
O "La'o-rai", que a memória esperta,
Co'as pocinhas na terra, ora a fogos

Mil sujeita!... O "caleic" também era
jogo apreciado da pequenada:
"Hana-caleic"!... de tudo já nada
Resta agora!... Só vejo essa fera

De garra adunca e dente aguçado
A rugir tão feroz que ninguém
A doma já, pois tem medo não tem
De um povo à fome, sem horta ou gado!...

Menino, sou, mas sofro já tanto
Como se fora de muita idade
E co'a alma cheia só de maldade!...
Jesus, tem pena deste meu pranto!...

Jesus Menino, dá-me alegria!...
Se na minha terra é tudo tão triste!...
Gente tão má neste mundo existe?!...
Coisas assim tão ruins?!... Não sabia!...