terça-feira, 1 de agosto de 2017

Alfabetização Cartográfica


"Conhecer a cartografia, um conteúdo essencial para a compreensão das relações entre espaço e tempo, permite ao aluno atender às necessidades que aparecerão no seu cotidiano (qual o melhor caminho para chegar a um lugar? Como conseguir localizar um amigo que vive em outra região?) e também estudar o ambiente em que vive. Sendo assim, a representação do espaço precisa ser dominada até o fim do Ensino Fundamental. Interpretar e produzir mapas são habilidades que se formam gradualmente. Por isso, é preciso desenvolver atividades com esse objetivo desde cedo. Por meio da alfabetização cartográfica, a turma entende conceitos básicos para conseguir interpretar e produzir representações com proficiência crescente.

Fotos áreas e de satélite ajudam a turma a analisar o espaço

Para interpretar um mapa, é necessário conhecer os conteúdos dele (população, divisão política, ocupação de solo, tipos de relevo e vegetação etc.) e saber os conceitos que fundamentaram a sua elaboração (localização, perspectiva, proporção, simbolização etc.), já que ele não se explica por si mesmo. Para compreender essa linguagem, a turma necessita aprender, por exemplo, conceitos de lateralidade e direção. Isso será útil para entender o posicionamento do espaço representado.

Outro passo é entender os sinais gráficos utilizados e os significados que eles podem ter. O vocabulário cartográfico é formado pelos mais diversos símbolos, que se relacionam entre si. Por exemplo: o que quer dizer 1cm - 1000 km, presente no canto de um mapa? Sem saber que se trata da escala de redução do espaço que ele representa, é impossível entendê-lo. O mesmo ocorre com as representações presentes na legenda. Não conhecendo a função desse recurso gráfico, é difícil compreender a relação entre as cores e formas presentes no mapa e o que significam.

Para introduzir essas noções e ajudar a turma a adquirir visão espacial, o trabalho com imagens aéreas e de satélite é um importante aliado. Sites como o Google Maps e programas como o Google Earth permitem visualizar mapas e fotos que podem ser analisados e comparados com outros tipos de representação, como croquis produzidos pelos alunos.

Essas ferramentas mostram a forma como as fotografias áreas são produzidas: pela sobreposição de um mapa a uma imagem de satélite. Com isso, os alunos conseguem perceber a perspectiva utilizada para representar o espaço e as diferenças entre a imagem aérea e sua representação cartográfica. Os mapas virtuais permitem ainda uma mobilidade de observação: o aluno pode ir para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, rotacionar as imagens e alterar a escala, a localização, a perspectiva (podendo até passear pelas ruas) e os símbolos necessários para a sua compreensão.

Escalas reduzidas são facilmente reconhecidas pelas crianças, pois têm uma forte ligação com o que é observado. No Colégio Universitário Geraldo Reis, ligado à Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, o professor Luiz Miguel Pereira analisou fotos áreas da escola e de seus arredores com as turmas de 4º ano. Várias imagens da região, com diferentes escalas, mas todas com a mesma perspectiva, foram usadas. "Assim, a turma conseguiu identificar pontos diferentes a cada observação e foi expandindo o olhar", diz o professor. Usando essas imagens, é possível explorar o que os alunos já sabem sobre a região e acrescentar novos elementos - vale frisar que você deve conhecer bem a área representada para poder fazer intervenções durante a leitura.

Se a turma tiver dificuldade para identificar os elementos da paisagem, indique alguns destaques da foto, questionando: o que predomina do lado direito? São casas? Áreas industriais? O que não aparece? Elementos da infraestrutura urbana também podem ser apontados: é possível ver o posto de saúde? Ele está fora da foto? Ou não temos um em nossa região? Lançando essas perguntas, você introduzirá também a questão da ocupação do solo, que já pode começar a ser trabalhada com turmas dessa faixa etária. 

Dominar os códigos, a função e as formas de representação

Os desenhos e as maquetes são atividades complementares à análise de fotografias. Entretanto, uma não é pré-requisito de abordagem à outra e não há uma ordem de ensino entre elas. O importante é que os alunos tenham contato com essas diferentes representações do espaço para que possam refletir sobre a função e as formas de produção dos mapas.

Ao produzir maquetes, você tem a oportunidade de ensinar conceitos de proporção, projeção e escalas gráficas e numéricas, mostrando todas as estratégias que podem ser utilizadas quando se quer recriar uma paisagem. Elas permitem uma discussão sobre como mostrar toda a área sobre um só ponto de vista e de que forma manter a proporcionalidade entre os elementos representados. "Com base em problemas desse tipo, o aluno poderá se dar conta de relações espaciais complexas", diz Rosângela.

Outra atividade inicial importante, a produção de desenhos que representem a sala de aula ou o trajeto da criança até a escola, pode ser trabalhada simultaneamente. Essas representações trazem informações que ajudam muito o trabalho docente. É possível perceber, por exemplo, conceitos que as crianças já conhecem e as maneiras que elas encontram para localizar e descrever o espaço. "Esses desenhos não são só a cópia de objetos, mas a interpretação do real. O mapa também é o recorte de uma realidade", explica Fernanda Padovesi, docente da Universidade de São Paulo (USP).

Alunos que são incentivados a fazer esse tipo de desenho desenvolvem referência e orientação espacial, fundamentais para o entendimento de mapas. Num segundo momento, com sua ajuda, eles podem construir símbolos para representar no mapa o que veem no mundo real. Por exemplo, se querem mostrar áreas verdes ou um lago, têm que representá-los por símbolos diversos. Assim, aos poucos e trabalhando com essas atividades, eles aprendem a explorar essa linguagem e se apropriam da "gramática" necessária para compreender e produzir mapas.

Utilize mapas virtuais para ensinar cartografia

"Revolução" é provavelmente a palavra mais adequada para descrever o impacto das novas invenções sobre o espaço, o principal objeto de estudo da disciplina. Com mapas virtuais, praticamente todos os lugares do mundo estão acessíveis aos olhares curiosos da turma (leia a sequência didática abaixo). Sites como o Google Maps e programas como o Google Earth possibilitam a visualização de partes do globo em versão cartográfica, imagens de satélite, fotos aéreas e até em 3D - algumas vezes, com uma resolução que permite perceber características das construções, quantidade de árvores e até de carros em uma paisagem. 

"Mapas e atlas impressos continuam tendo utilidade. Porém aprender a utilizar a cartografia digital permite converter o aluno em sujeito ativo do processo de construção da informação geográfica", avalia Levon Boligian, autor de livros didáticos e professor de Metodologia de Ensino de Geografia da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp). O maior diferencial dos mapas virtuais é a interatividade. Além de livre escolha de local, escala e tema (vegetação, fronteiras políticas ou malha de transporte, por exemplo), o usuário ainda tem mobilidade de observação - pode ir para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda e até rotacionar as imagens. No Google Earth, há também uma ferramenta que permite ver a transformação na ocupação de um local ao longo do tempo. Para os anos iniciais do Ensino Fundamental, é mais indicado trabalhar com a identificação de elementos geográficos próximos, como ruas e bairros da cidade, ou a comparação dessas áreas com as de cidades de outros países. Já turmas do 6º ano em diante podem avançar nos mapas temáticos ou internacionais."

Fonte: Nova Escola, publicado em maio de 2011. Acessado em 01 de A gosto de 2017. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/2325/alfabetizacao-cartografica

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