terça-feira, 7 de maio de 2013

Os sete pecados no baile de formatura

Ítalo Stephan*

A ocasião da formatura de uma universidade é um marco importante. Sela uma fase e força o início auspicioso de outras. É um período de celebração justa por muitos motivos: sacrifícios por parte dos pais e dos filhos (separação, saudades, preocupação com o dinheiro, insegurança e dificuldades de adaptação) superação (amadurecimento, muitos estudos, adaptação), e alargamento das oportunidades de realização profissional. Festejar isso é mais que justo e muito esperado pelos estudantes, amigos e familiares. No entanto, há, nessa época uma exacerbação das coisas. Por um lado, há a colação de grau, o desejo de compartilhar a felicidade. Há um juramento ético que parece ser deixado de lado imediatamente após as cerimônias formais. Em um país tão católico e ainda marcado pelo contraste social, onde tão pouca gente alcança um título de nível superior, tem havido exageros. A atual forma é excludente. Dá até para dizer que os sete pecados capitais estão presentes e consolidados no processo da formatura, desde seu início e com seu ápice no grande baile.

A preguiça, que é negligência ou falta de vontade para o trabalho ou atividades importantes, ocorre quando, mesmo com obrigações como os trabalhos finais do curso, há o compromisso de arrecadar muito dinheiro em rifas, de promover as festas. Há uma preguiça em criar uma outra forma de celebração de momento tão importante que seja mais modesta e includente.

Há a luxúria, que é o apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia.

Está presente a gula, que é comer somente por prazer, em quantidade superior àquela necessária para o corpo humano. Há, nos bailes, um excesso de comidas e um enorme desperdício que duvido que ocorra em outros locais de um país e de um planeta altamente socialmente injustiçado.

Segue a avareza que é o apego ao dinheiro de forma exagerada, desejo de adquirir bens materiais e de acumular riquezas. Há uma competição fútil na comparação de quem faz o vestido mais bonito e mais caro. Os homenageados não têm direito a levar seus acompanhantes no baile, nem mesas para se sentar. Que economia é esta em cima dos homenageados? Quanta gente fatura muita grana "organizando" esses eventos?

O quinto pecado é a ira que é a raiva contra alguém, vontade de vingança. Comparam-se penteados, maquiagens, joias, acessórios e marcas de uísque.

O sexto é a soberba, que é a manifestação de orgulho e arrogância. Comparam-se os sucessos dos que conseguiram um emprego dos sonhos ou uma vaga nos melhores mestrados, ou quem ganhou um carro ou uma viagem ao exterior.

Por último, vem a vaidade, que é a preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros. Todos querem participar da “melhor formatura de todos os tempos”, marcados pela maior quantidade de gente, pela melhor banda, por arranjos florais mais sofisticados, pelas melhores fotografias, pela melhor marca de cerveja, pela maior diversidade do cardápio, com a maior quantidade de camarão, sorvetes, coquetéis ou de energéticos.

Há, já desde o início, exclusão e discriminação sociais.Quantos estudantes ficam de fora de um baile pelo custo absurdo que muitos pais não podem arcar?A conclusão de um curso universitário é, paradoxalmente, muito mais que isso. A importância da colocação no mercado de trabalho de pessoas qualificadas (com recursos públicos), mas com a ética como norteador essencial, é verdadeiramente, o que importa.

Aproveitando a oportunidade, gostaria de salientar que está na hora de passar a fazer uma celebração para cada centro de ciências. Isso seria bom para a cidade e permitiria fazer festas menos lotadas, mais democráticas e menos escandalosamente imponentes.

*Professor dos cursos de graduação e de mestrado em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Viçosa. Conselheiro do CAU-MG. Autor do blog http://italostephanarquiteto.blogspot.com

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