quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sobre o ENEM e a imigração

D blog Esparrelapor Artur Lascala

O tema da redação do ENEM desse ano permite algumas reflexões pertinentes. Os postulantes ao ensino universitário brasileiro tiveram de discorrer sobre os novos fluxos imigratórios em direção ao Brasil no século XXI. Foi uma escolha ousada, muito pouco se fala sobre o tema nos noticiários.
O principal exemplo que vem à mente é o dos bolivianos em São Paulo. Frequentemente explorados por seus empregadores, que os submetem a regimes de trabalho semelhantes à escravidão. A comunidade boliviana já é uma realidade, mas que ainda permanece um tanto oculta. Só quem circula por algumas regiões do centro ou, melhor ainda, vai à Praça Cantuta aos domingos sabe que eles são muitos.
Na verdade, nem todo boliviano paulistano vive em condições dramáticas e muitas são as histórias de sucesso, que acabam por incentivar o fluxo migratório. Ademais, é preciso lembrar que a Bolívia é uma nação muito empobrecida e uma boa parte dos emigrados não pretende voltar, ainda que isso não seja uma regra.
A imigração, de modo geral, ocorre segundo a resultante entre duas forças. As forças de repulsão da terra natal, sendo a principal delas o desemprego, mas não só. E as forças de atração do país de destino, que pode oferecer melhores condições de prosperidade econômica, liberdade política, serviços públicos etc.
Quando observamos para a relativa expansão econômica brasileira nos anos 2000, fica evidente que o país deveria tornar-se um polo de atração de imigrantes. Além da economia, o Brasil é, grosso modo, uma sociedade democrática e multicultural, que passou pela experiência da imigração em massa no início do século XX. Se as coisas continuarem como estão, os imigrantes virão cada vez mais residir no território brasileiro.
Estará a sociedade brasileira pronta para recebe-los sem cair nas garras da xenofobia e da violência? É cedo para dizer, mas o fato de comentários preconceituosos contra os bolivianos estão se tornando cada vez menos incomuns. Quando os ditos indesejáveis batem à porta, é quando se liberam os mais profundos recalques e a mais abjeta ferocidade.
Como os estudantes terão reagido à proposta da banca? O tema, como disse acima, é difícil e espinhoso. Fica especialmente curioso pensar a respeito da prova quando um dos atributos que, se não respeitado, zera imediatamente a prova, é o respeito aos direitos humanos. Do meu ponto de vista, parece haver um direcionamento de resposta, o que parece indesejável pedagogicamente.
Isso é especialmente controverso tendo em vista o pouco debate público que houve a respeito dos novos fluxos imigratórios. Sem dúvida, grande parte dos candidatos foi pega de surpresa, tendo em vista que a imigração é percebida de maneira totalmente diferente nas diversas regiões do país. A diferença da experiência com estrangeiros de um estudante do Amapá é diversa daquela de um do interior de Minas Gerais.
A multiplicidade de perspectivas e a falta de discussões pode fazer com que bons candidatos sejam eliminados por criticar a vinda de novos imigrantes e incorrerem, eventualmente, em desrespeito aos direitos humanos. Não sei o quão rigorosa será  a banca, mas isso não me parece uma boa maneira de selecionar candidatos.
O Brasil precisa estar aberto se preparar para lidar com os conflitos que, infelizmente e inevitavelmente, a imigração há de causar no futuro, e fazer com que os jovens estejam adaptados para concorrer no mercado de trabalho com pessoas que não são seus conterrâneos. Embora o ENEM possa ser um locus interessante para introduzir o debate, ele não deve esperar um posicionamento determinado de estudantes tão diferentes.

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